quarta-feira, dezembro 26, 2007
Realidade
1.Conceito filosófico da realidade. A distinção entre realidade e aparência sempre foi um dos problemas centrais da filosofia. Foi colocada pela primeira vez por Parménides, no século VI a.C.. Entende-se vulgarmente por realidade tudo aquilo que existe ou é, por oposição aquilo que designamos por nada, aparência, ilusão, desejo, projecto.
2. Concepções sobre a Realidade. A questão - o que é a realidade? -, tem originado nas várias correntes filosóficas respostas muito diversas. Cada uma traduz de uma forma explicita ou implícita uma dada concepção da mesma.
- Realidade Sensorial. O homem comum como o empírista radical tende a associar a realidade com aquilo que pode ser empiricamente observado. A realidade existe independentemente da consciência dos indivíduos. Basta olhá-la para a descobrir e captar na sua totalidade. A realidade é assim algo que existe independente da consciência dos indivíduos. Esta posição traduz-se na crença que só as coisas observáveis são reais. Neste sentido, tudo o que não pode ser captado através dos sentidos tende a ser negado, ou é tratado como um produto da imaginação. Estamos perante uma visão ingénua da realidade, desmentida pela investigação científica.
- Realidade Científica. A ciência dá-nos uma visão objectiva da realidade. Para isso o cientista municia-se de um método e instrumentos apropriados ao seu objecto de estudo, selecciona "factos", "acontecimentos", e interpreta-os à luz de um dada teoria. A realidade para a ciência é assim uma construção, nunca é algo dado. Mas esta realidade é real? A questão prende-se com o conceito de objectividade e de realidade com que trabalham os o cientistas. É real tudo aquilo que pode ser observado por mais do que uma pessoa, e pode ser portanto objecto de um consenso de percepção, e em especial pode ser provada (ou refutada) experimentalmente. Se seguirmos os procedimentos adoptados, em princípio, chegaremos todos à mesma visão da realidade. A legitimidade destas visões duram enquanto durar o acordo com os resultados das observações e das experiências. Nada na ciência é eterno, todas as explicações são válidas até serem refutadas.
- Realidade Ideal. A realidade não se confunde com as imagens efémeras das coisas que obtemos através dos sentidos. A verdadeira realidade é da ordem das ideias. Só nestas poderemos encontrar algo imutável e eterno. A verdadeira realidade está nos próprios indivíduos e não nas coisas. Parménides e depois Platão numa forma sistemática, sustentaram esta concepção do real. Outros filósofos desenvolveram concepções idênticas. Berkeley, no século XVII, sustentou que a única realidade que existia era a das nossas percepções.
3.Realidade e Abstracção. Uma das formas tradicionais de encarar a realidade é vê-la como um processo de abstracção. Podemos distinguir diversos níveis de o fazer:
- Experiência directa das coisas na sua singularidade. Cada coisa é única e irrepetivel nas suas propriedades.
- Nomeação das coisas. Ao referimos as coisas utilizamos os conceitos que nos são dados pela linguagem que usamos. Estes conceitos, como vimos, são o produto de uma abstracção, através da qual determinamos o que há de essencial em seres da mesma espécie.
- Estudo científico das coisas. Cada ciência dá-nos uma visão própria da realidade, não a realidade como ela é, mas sim como é vista ou construída numa dada comunidade científica. Estamos perante um processo de abstracção mais elevado que aquele que encontramos na linguagem corrente.
- Metafísica. Na filosofia construiu-se o processo mais abstracto de estudar a realidade, trata-se da metafísica. A realidade é encarada como um Todo, para além de todas as determinações. A metafísica pode dividida em duas disciplinas filosóficas fundamentais: a)Cosmologia: Estuda o mundo, abstraindo-se do facto dos seres serem ou não vivos. b)Ontologia: Trata do "ser enquanto ser".
4.Realidade e Linguagem. O Problema dos Universais. Muitas questões tem sido colocadas a propósito das relações da linguagem com a realidade. Um dos problemas centrais trata-se da natureza ontológica dos universais, também designados por noções genéricas, ideias ou entidades: Será que as palavras ou as ideias têm valor ontológico, ou têm apenas um valor semântico? Um conceito ou ideia traduz a essência comum a todos os seres da mesma espécie ou é apenas uma palavra? Estas e outras questões apaixonaram os homens medievais, originando três correntes fundamentais: os conceptualistas, os nominalistas e os realista. a) os conceptualistas afirmavam que os conceitos universais apenas existem na nossa cabeça, são ideias abstractas. Não são meros nomes, nem algo concreto. b) os nominalistas afirmam que os universais são simples palavras, meros símbolos convencionais que usamos para designar grupos de seres. As únicas coisas que existem são individuais, os nomes são abstracções. c) os realistas afirmam, pelo contrário que os universais são entidades eternas, imutáveis e inteligíveis como as ideias de Platão.
5.Cosmologia. A cosmologia, enquanto disciplina filosófica, procura compreender o mundo num elevado grau de abstracção( o ser mundo). Trata de conceitos como a "quantidade", o "número", o "lugar" e o "espaço", o "movimento", o "tempo", as "qualidades", a "natureza dos corpos", as "propriedades da vida e a sua origem", etc. É também designada por Metafísica especial, ou numa perspectiva mais restrita, Filosofia da Natureza.
A cosmologia filosófica pode ser dividida em três períodos fundamentais:
a) No período clássico, medieval e renascentista ( de Platão a Descartes) está centrada no problema da origem e no princípio primordial da natureza ou cosmos.
b) No período moderno (de Descartes a Einstein) está centrada na problemática da astronomia e na crítica às deduções à priori.
c) No período contemporâneo ( de Einstein aos nossos dias) centra-se na discussão das grandes questões colocadas pela física moderna e na análise lógica das proposições e conceitos científicos com implicações sobre a cosmologia. A especulação filosófica cedeu terreno à epistemologia.
5.1. Cosmologia científica. No século XX a cosmologia constituiu-se também como uma ciência. Trata-se de um ramo da física que estuda a forma geométrica do mundo e as suas leis gerais. É interessante constatar que muitos cosmólogos se entregam a especulações que se aproximam mais da metafísica do que da ciência.
6. Cosmogonias. Uma das questões decisivas da cosmologia foi sempre a da origem do cosmos. A religião foi a primeira a assumir este tema, depois a filosofia e por fim coube a vez à ciência.
6.1. Cosmogonias religiosas. A explicação da origem do cosmos é na maioria das religiões um dos seus temas centrais, conferindo sentido não apenas ao mundo, mas também à existência da vida humana.
Os gregos acreditavam que a realidade era um todo organizado (cosmos), formada por intervenção divina a partir de um caos inicial. A matéria era eterna, o que se modifica é a sua forma.
O judaísmo e o cristianismo concebem a formação do mundo como a manifestação da vontade de Deus. Tudo foi por Ele criado a partir do nada (creatio ex nihilo). Poderia portanto não existir, ou poderá deixar de existir. Tudo depende da vontade de Deus.
O islamismo no essencial mantém esta cosmogonia judaico-cristã.
6.2. Cosmogonias Filosóficas. A explicação da origem e funcionamento do cosmos foi o tema comum aos primeiros filósofos. Qual o tipo de matéria inicial e como se foi estruturando eram as grandes questões iniciais. Até aos nossos dias muitos filósofos têm desenvolvido teorias cosmogónicas.
6.3. Cosmogonias Científicas. A ciência moderna trouxe consigo um novo tipo de cosmogonias, as que estava conformes aos conhecimentos científicos que predominam numa dada época.
Universo Estático. Nos séculos XVII e XVIII predominou a concepção do universo como um relógio. Criado e posto a funcionar por Deus, mantinha-se inalterável e funcionava segundo leis imutáveis. Galileu, Descartes e Newton foram três dos principais obreiros desta cosmogonia.
Universo Evolutivo ( I ). Em meados do século XVIII, começam a surgir as primeiras teorias sobre a criação do cosmos a partir de uma massa caótica inicial.A intervenção divina é secundarizada ou suprimida. Diderot e Kant foram dois percursos destas teorias. No século XIX Lamarck e Darwin estenderam estas concepções evolutivas à espécie humana. A criação do universo é atribuída a uma dinâmica interna da matéria fruto de uma sucessão de felizes acasos.
Universo Evolutivo ( II ). Em 1929, Edwin Hubble, após vários anos de observações dos céus com o telescópio de Mount Wilson, anunciou a teoria que o irá marcar o aparecimento das novas cosmogonias:. As galáxias estão a afastarem-se entre si. Após a IIª. Guerra Mundial George Gamow, provavelmente influenciado pelas recentes explosões atómicas, apresenta a tese do "Big Bang": o universo quando a matéria atingiu um elevado estado de compressão, entrou numa fase muito instável, o que terá desencadeado uma explosão que deu origem ao seu actual estado. Esta teoria em virtude das descobertas, em 1965, de possíveis vestígios de radiações iniciais do universo, tornou-se na principal teoria cientifica sobre a origem do universo.
Apesar de todas as teorias cosmológicas construídas ao longo da história da humanidade, as grandes questões continuam por explicar. "De Onde Viemos ?", continua a ser hoje tão enigma como há 100 mil anos atrás. A grande diferença está na atitude como a encaramos. Antes a questão mobilizava povos inteiros e era susceptível de infundir medo perante o desconhecido. Hoje tornou-se matéria de investigação e reflexão de especialistas.
7. Ontologia. O Estatuto do Ser. Para muitos filósofos o objectivo fundamental da filosofia está na compreensão integral da realidade, isto é, do Ser. Mas o que é o Ser? O ente? a substância? os acidentes? a essência? a existência? Estes são alguns conceitos fundamentais que os filósofos foram criando para se referirem a tudo o que é, tem ser ou participa do ser.
sexta-feira, setembro 07, 2007
Realidade como uma rede
"As redes estão em todas as partes. O cérebro é uma rede de células nervosas conectadas por axônios e as próprias células são redes de moléculas ligadas por reações bioquímicas. As sociedades também são redes, constituídas por pessoas unidas por amizades, laços familiares e profissionais. Em uma escala mais ampla, redes alimentares e ecossistemas podem ser representados como redes de espécies. E redes permeiam a tecnologia: a Internet, as redes de energia elétrica e os sistemas de transporte são apenas alguns exemplos. A própria linguagem que usamos para transmitir essas idéias é uma rede, formada por palavras conectadas por padrões sintáticos. Mas, apesar da importância e do alcance das redes, os cientistas nunca compreenderam muito bem suas estruturas e propriedades. De que maneira as interações entre nós defeituosos em uma rede genética complexa resultam em câncer? Como a difusão ocorre tão rapidamente em certos sistemas sociais e de comunicação, causando epidemias de doenças e vírus de computador? Como algumas redes continuam a funcionar, após o colapso da maioria de seus nós?" [Albert- László Barabási]

A Realidade, segundo Capra [Tao da Física], é uma rede de relações onde as próprias relações se manifestam como objetos, interações (estruturas), estados, processos, eventos, sistemas, ...
No novo paradigma a ciência deve conceber a realidade como uma rede de relações. O campo de ação abrange uma teia de relações intrinsecamente dinâmicas, que não lida com verdades exatas.
A Realidade é uma rede interconexa de fenômenos (objetos / relações ou interações) que inclui o observador humano como um componente integrante, onde:

- a realidade é um todo indivisível, as suas divisões (dimensões, domínios, níveis, aspectos, visões, enfoques, pontos de vista, ...) são criações de seres cognitivos para efeitos de entendimento e manipulação da mesma;
- quaisquer das partes dessa rede constituem apenas padrões relativamente estáveis;
de maneira correspondente, os fenômenos reais são entendidos por meio de uma rede de conceitos; - nenhuma parte é mais fundamental do que qualquer outra;
a realidade pode ser entendida a partir de suas partes (reducionismo) ou do todo (holismo), na realidade quando estamos nos referindo a partes ou todo, estamos abstraindo, com o propósito de obter entendimento. Na realidade não existem partes ou todo a realidade é única; - os fenômenos da realidade podem ser enfocados como estruturas – dados/informações (enfoque estático ou estrutural) ou como processos (enfoque dinâmico ou comportamental);
- a realidade deve ser descrita com a inclusão do observador humano no próprio processo de descrição, isto é, a descrição é dependente do observador humano e do processo de conhecimento. O entendimento do processo de conhecimento deve ser incluído explicitamente na descrição dos fenômenos da realidade, a epistemologia é parte integrante de toda teoria científica;
- a realidade é uma rede de relações e também nossas descrições – conceitos, modelos e teorias – formam uma rede interconexa, representando os fenômenos observados. Nessa rede não existe nada primário ou secundário, nem quaisquer alicerces e tudo ser relaciona com tudo;
- todos os conceitos, modelos e teorias científicas são limitados e aproximados. Nunca existirá um entendimento completo e definitivo, nem verdades absolutas e sim descrições limitadas e aproximadas da realidade. Nenhum fenômeno isolado da realidade pode ser plenamente explicado, mas podem ser experimentados em nossa limitada totalidade;
- devemos distinguir, segundo Popper, com alguma clareza a:
- Realidade Real – Realidade Única
- Realidade Mental – Realidade Subjetiva
- Realidade Teórica (Conceitos, Teorias e Modelos) –Realidade Objetiva.
A Realidade pode, então, ser vista como uma rede interconexa de fenômenos (elementos - objetos, entidades / interações - relações, ligações) que inclui o observador humano como um componente integrante, onde:
Os fenômenos reais, representados como elementos de rede onde um elemento de rede pode ser:
- um nó representando um fenômeno do tipo objeto, ou
- um arco representando uma ligação (interação entre fenômenos)
Os fenômenos do conhecimento são também fenômenos reais, representados como conceitos em rede onde um conceito (elemento de conhecimento) pode ser:
- um nó representando um termo ou tipo ou classe
- um arco representando uma relação ou associação entre conceitos.
Um nó da rede pode encapsular uma outra rede.

Essas redes podem ser organizadas em níveis:
Realidade e Conhecimento - Definições Iniciais
Realidade (do latim 'realitas' significa "coisa") para o senso comum significa "tudo aquilo o que existe". Pode-se, no entanto, ampliar a sua abrangência incluindo o que não é perceptível, acessível ou entendido pela ciência ou pela filosofia.

Realidade também pode ser entendida como a propriedade do que é real.

Sobre a realidade só podemos elaborar hipóteses (opiniões, crenças, mitos, dogmas, teorias, modelos, visões, abordagens, visões do mundo) que são agrupadas em religiões, filosofias, ciências, paradigmas, através de alguma linguagem (textual, gráfica ou sonora), com o propósito de obtermos entendimento (elaborar explicações e realizar previsões) e a partir dessas hipóteses, experimentar a realidade observando e manipulando (utilizando e construindo) os seus fenômenos.

Para começarmos a responder a pergunta sobre o que é a realidade? Podemos dizer que ela é composta de fenômenos (objetos físicos ou estados materiais de objetos físicos) e que o nosso conhecimento é uma representação dessa realidade, podendo ser especializado em conhecimento subjetivo (mundo de estados de consciência, de estados mentais, ou de disposições comportamentais para agir) e conhecimento objetivo (estados objetivos de pensamentos ou hipóteses, conjecturas, teorias, modelos, argumentos).
Nosso conhecimento objetivo, é um conjunto de hipóteses sobre a realidade, que representam o nosso entendimento sobre os seus fenômenos e que utilizamos para experimentar outros fenõmenos dessa própria realidade.
A realidade é um conjunto de fenômenos sobre os quais buscamos entendimento, para podermos existir, sobreviver, conhecer e exercer o poder (competência) sobre os mesmos. Fazemos isso procurando classificá-los segundo suas características, medindo os valores dessas características, enfocando-os segundo os diferentes domínios, dimensões e níveis dessa realidade. A realidade - segundo a abordagem Fenomenalista - é algo que é percebido e abstraído como um conjunto de coisas (fenômenos), onde o que se percebe - na "realidade" - são os estados dos fenômenos que a constituem, tudo o mais são meramente abstrações (conceitos) construídas a partir da observacao desses estados das coisas da realidade (fenômenos).
O cérebro humano capta inúmeras freqüências dimensionais, interpreta-as e, por meio delas, "cria a realidade". Assim sendo, elementos não sujeitos as leis do espaço e do tempo - conceitos que constituem hipóteses - são integrados aos elementos da realidade em nossas mentes.
Hipóteses são construídas sobre os fenômenos da realidade. Uma hipótese pode ser um conceito ou uma regra que correpondem respectivamente a elementos da realidade e as leis da natureza.
As leis da natureza condicionam os elementos da realidade assim como as regras condicionam os conceitos.
Um elemento real pode ser um objeto ou uma interação entre objetos.
Um conceito pode ser uma clase ou uma associação.
Conceitos representam elementos da realidade e podem se relacionar com outros conceitos.
Assim as Noções (Abstrações, Conceitos) de Realidade, Coisas, Estados, Abstrações e Conceitos já são Abstrações - talvez as mais básicas, sem as quais não iremos conseguir obter entendimento sobre a Realidade.
Para que possamos adquirir entendimento sobre o conceito Realidade, devemos abstraí-lo como um conjunto de Fenômenos sobre os quais, também, buscamos entendimento, (Conceitos) com o propósito de podermos prever, manipular e controlar tais Fenômenos.
Os Fenômenos da Realidade podem ser entendidos a partir das Características que lhes atribuímos (Qualificação do Fenômeno) e dos Valores dessas Características correspondentes ao seu Estado quando de sua atribuição (Quantificação).
Links com definições sobre a Realidade: