Mostrando postagens com marcador Capra. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Capra. Mostrar todas as postagens

domingo, março 16, 2008

Organizações em Rede

Tema do mês de junho de 2006

Título do tema: Organizações em rede: novas formas de comunicação no terceiro setor

Autora: Sheila Prado Saraiva

Versão para download: Tema do mês de junho de 2006

Considerações Iniciais*

A organização de pessoas ou instituições em rede, para fins diversos, mas com objetivos, valores ou interesses comuns, é uma característica evidente da época em que vivemos. Como completa CASTELLS (1999, p. 565), “como tendência histórica, as funções e os processos dominantes na era da informação estão cada vez mais organizados em torno de redes”. E acrescenta: “redes constituem a nova morfologia social de nossas sociedades e a difusão da lógica de redes modifica de forma substancial a operação e os resultados produtivos e de experiência, poder e cultura” (idem, p. 565).

E o que são essas redes? A palavra rede vem do latim retis e, a partir de significados diversos, pode ser definida como um “entrelaçamento de fios com aberturas regulares que formam uma espécie de tecido” (SILVA, 2001, n.p.). Normalmente são definidas como um conjunto de pontos interligados, em associação ao desenho de uma teia ou trama de fios. Porém, para CAPRA (apud COSTA, MARTINHO e FECURI, 2003, p.24), que as analisa sob a ótica dos sistemas vivos, essas estruturas interligadas possuem propriedades e dinâmicas específicas que a caracterizam como rede, como a não-linearidade, laços de retroalimentação, autoorganização e capacidade de operar de forma não hierárquica.

Segundo o autor, são essas características que determinam a condição de rede sob a qual a vida se organiza: “onde quer que encontremos sistemas vivos – organismos, partes do organismos ou comunidade de organismos – podemos observar que seus componentes estão arranjados à maneira de rede” CAPRA (apud COSTA, MARTINHO e FECURI, 2003, p.12).

As redes, portanto, não são nova forma de estrutura em nossa sociedade, nem do ponto de vista biológico nem da construção de relacionamentos. O que talvez seja recente é a aplicação das redes em um novo contexto, baseado no uso tecnologia e, em alguns casos, para fins específicos e organizacionais.

Segundo LIPNACK & STAMPS (1992), somente nas últimas décadas é que o conceito de redes foi adotado como “ferramenta organizacional” para dar nome a uma nova forma de trabalho colaborativo entre partes (pessoas, instituições em geral, empresas etc.) muito facilitada pelas inovações tecnológicas da Era da Informação.

Esta nova ferramenta ou forma de trabalho permite, através das possibilidades de interconexão, alterar e recriar paradigmas geográficos, pois coloca em contato, em tempo real, pontos de diversas partes do globo, modifica a noção de distância e cria novos espaços, como os “territórios” virtuais para “comunidades” que não convivem fisicamente.

Modifica também o paradigma clássico da comunicação e a relação emissor-receptor, pois coloca muitos pontos em contato sem que necessariamente se tornem massa. Possui inúmeros emissores e receptores ao mesmo tempo, e as trocas de mensagens são feitas em todas as direções. Além disso, a rede altera a percepção do receptor e confere a este um papel ativo na busca e na seleção da informação (e também de seu interlocutor) dentro de um universo de dados.

Diferentes grupos se utilizam de vários recursos para desenvolver trabalhos em parceria, nos quais a rede é um instrumento que torna a troca possível: redes de pesquisadores que estudam um mesmo assunto, redes de correspondentes internacionais para a mídia, redes de organizações preocupadas com questões sociais e meio ambiente, redes de voluntários, redes de empresas (ou redes de trabalho dentro de uma empresa), entre outros. A localização de cada um desses pontos torna-se irrelevante do ponto de vista geográfico, se houver capacidade de conexão que viabilize o diálogo.

Há uma série de estudos que abordam, com profundidade, os diversos olhares sobre a sociedade em rede, e que buscam compreender a aplicação desse modelo nos contexto atual: das questões antropológicas às tecnológicas, das análises teóricas aos aspectos práticos. Em geral, são estudos multidisciplinares que iluminam determinados ângulos de uma realidade bastante complexa, construída em tempo real.

No presente trabalho, partiremos de algumas evidências observadas no processo de reorganização social e utilizaremos como argumentos, a partir do referencial teórico estudado, alguns “porquês” encontrados como delineadores desta tendência.

Assim como CAPRA (apud COSTA, MARTINHO e FECURI, 2003) aponta a existência de redes em todos os sistemas vivos, LIPNACK & STAMPS (1992) e CASTELLS (1999) colocam, do ponto de vista sociológico, que a organização da sociedade em rede é tão antiga 13 quanto a humanidade, tendo existido em outros tempos e espaços, em formatos adequados às realidades e contextos da época. Por essa razão, os autores entendem que não há como compreender esta forma de organização social, no momento atual, sem tocar em questões fundamentais do processo de transformação da nossa sociedade, como “(...) a construção de identidade, movimentos sociais, transformação do processo político [e econômico] e crise do Estado na era da informação” (CASTELLS, 1999, p. 565).

Além das questões acima apontadas, identificamos a inovação gerada pelas tecnologias da informação como o principal estímulo e recurso para que as redes, no sentido atual, sejam constituídas. CASTELLS (1999) aponta que a tecnologia da informação é justamente aquilo que oferece a base material que permite à sociedade adotar, em escala, essa forma de organização social.

Sobre o significado atual das redes, LIPNACK & STAMPS (1992, p. 3) definem que “o trabalho em rede de conexões significa pessoas conectando-se com pessoas, unindo idéias e recursos”. Para GUARNIERI (2004, p. 1), “quando falamos em rede [...] estamos falando de um novo jeito de se organizar, de atuar, de formar parcerias e alianças”; Em “Megatrends”1, a palavra networking é traduzida como “comunicação lateral intensiva”2, termo que reúne em si a forma de relacionamentos existentes em redes (hierarquia substituída pela lateralidade), o objetivo desta integração (a troca) e o meio, premissa básica para a existência da rede (a comunicação, que permite estabelecer elos entre os pontos da rede).

O trabalho em rede pressupõe colaboração e troca constante entre seus pontos. AYRES (2003) destaca os fluxos de informação e de conhecimento e o aprendizado decorrente das interações e cooperações – que permitem a sobrevivência em grupos sociais – como questões centrais para pautar o trabalho em rede.

Cabe ressaltar que a circulação de informações de forma não-linear CAPRA (apud COSTA, MARTINHO e FECURI, 2003) é a essência deste modelo, independente da existência de um objetivo ou projeto comum entre os pontos – embora, considerando a aplicação do modelo em organizações, o estabelecimento de um projeto comum possa ser adequado e pertinente.

Por sua natureza, e também pelas transformações sociais vividas em nossos dias, observamos que as redes têm sido bastante disseminadas no Terceiro Setor, dentro do qual tais formas de organização das relações ampliam tanto as possibilidades de articulação entre os atores sociais como o impacto de suas ações. Como um argumento a mais, identificamos que a participação voluntária, o trabalho colaborativo, inclusivo e baseado em valores comuns que permeiam as redes também está em sintonia com as finalidades do Terceiro Setor.

Como aponta SILVA (s.d, p.1):

O terceiro setor se caracteriza por iniciativas, cujos profissionais envolvidos percebem a colaboração participativa como um meio eficaz de realizar transformações sociais. As instituições do terceiro setor têm procurado desenvolver ações conjuntas, operando nos níveis local, regional, nacional e internacional, contribuindo para uma sociedade mais justa e democrática. Para tanto, e a partir de diversas causas, a sociedade civil se organiza em redes para a troca de informações, a articulação institucional e política e para a implementação de projetos comuns. (s.d, p.1)

Nesse sentido, entendemos que o estabelecimento de parcerias e trabalho colaborativo no Terceiro Setor não é apenas uma oportunidade de potencializar as ações. Mais do que isso, é uma maneira de relacionar-se.

Em qualquer segmento ou setor social, as redes são, acima de tudo, espaços de comunicação e relacionamento entre pessoas (ligação entre nodos). Por isso, poderíamos dizer que as redes são em si processos comunicativos, já que é a troca estabelecida entre os nodos a razão de ser de uma rede. Qualquer que seja seu objetivo principal, sua causa, bandeira, ou valores, sua razão de existência está na interação entre dois ou mais pontos, constituindo um sistema aberto que, através da troca de informações, estabelece um processo comunicativo.

Por isso mesmo, embora seja central a questão tecnológica quando falamos de rede, não é menos relevante a questão do relacionamento entre as partes. LIPNACK & STAMPS (1992, p. 10) dizem que “a essência do trabalho em rede reside no relacionamento pessoa-pessoa; são pessoas que escrevem cartas [...] que conversam em grupos, [...], propõem idéias, compilam recursos e fecham negócios. São pessoas que têm e transmitem valores”. FACHINELLI, MARCON & MOINET (2001) seguem esta mesma idéia, afirmando que:

Evidenciar as relações entre atores não é suficiente para enunciar a existência de uma verdadeira rede. Uma agenda de endereços, não mais que um anuário de diplomados, não constitui rede, mas sim uma matéria-prima relacional. Para que a rede ganhe corpo, é necessário que um projeto concreto, coletivo, voluntário, proporcione uma dinâmica específica às relações pré-existentes.

Com base na perspectiva de que redes são espaços de comunicação e relacionamento característicos da sociedade atual, buscaremos compreender suas formas e suas potencialidades para organizações do Terceiro Setor. Em especial, investigaremos a possibilidade de fomentar o trabalho em rede, neste contexto, através de um olhar da comunicação organizacional.

Objetivo do estudo

O objetivo geral deste estudo é analisar os aspectos comunicacionais e de construção dos relacionamentos das redes, partindo de um contexto macro, que é a sociedade em transformação – na qual as redes constituem uma nova forma de organização social. Buscaremos, também, compreender as razões que estimulam o indivíduo a agrupar-se.

O objetivo específico é entender o papel das redes como processos de comunicação e como estratégia de comunicação organizacional em organizações sociais, levando em consideração que este tem sido um modelo bastante adotado no Terceiro Setor e em sintonia com a sociedade da informação3.

Metodologia de trabalho

O presente trabalho é constituído de duas partes: um levantamento teórico sobre os conceitos pertinentes ao tema em questão e uma análise qualitativa, feita a partir do estudo de organizações do Terceiro Setor que adotam esse modelo de trabalho.

Segundo DENCKER e DAVIÁ (2001), a pesquisa qualitativa está baseada em um processo de intensa observação por parte do pesquisador, e os dados coletados resultantes deste trabalho são predominantemente descritivos.

Por sua vez, a análise será construída com o auxílio de um quadro referencial teórico, a partir da experiência de rede de cada organização, da coleta de documentos organizacionais, e de relatos e informações obtidos através de métodos de observação.

Segundo LOPES (2003), o estudo dos fenômenos comunicacionais estão necessariamente apoiados nos estudos das Ciências Sociais e, devido a sua complexidade, demanda um entendimento multidisciplinar que contemple os diversos aspectos que envolvem estes fenômenos. Estudá-los sob a ótica de uma única ciência ou disciplina seria limitante, e não permitiria compreender os processos comunicacionais em sua totalidade, como fenômenos sociais que são.

Levando em conta a necessidade de compreender a comunicação de forma ampla e, por outro lado, entendendo que esgotar toda a complexidade do assunto deste estudo é inviável, buscaremos desenvolver um olhar multidisciplinar atento aos principais temas correlacionados.

1 NAISBITT, John. Megatrends: Ten new directions transform. London: Warner Books, 1984. voltar
2 O termo é apresentando em nota de rodapé do livro “Networks: Redes de Conexões”, de Jessica Lipnack e Jeffrey Stamps, como sendo a tradução para o português da palavra networking, utilizada no livro “Megatrends”, de John Naisbitt. voltar
3 O termo Era da Informação é utilizado por Castells para caraterizar tanto os avanços tecnológicos nas áreas de Computação e Telecomunicações (que ocorreram no século XX e que ocorrem, ainda, neste início de século XXI), como as mudanças trazidas a partir de tais avanços. Estes, combinados a uma circulação cada vez maior de informações pelo planeta, passaram a remodelar de forma profunda a organização da sociedade. Assim é que as chamadas "Tecnologias da Informação" tornaram-se ferramentas geradoras de riqueza, com participação indispensável no exercício do poder e na criação de novos códigos culturais. Além disso, as Tecnologias de Informação fortalecem a existência das redes – estas se tornam, cada vez mais, o modelo mais utilizado na organização das atividades humanas na Era da Informação. voltar

*Nesta página são apresentadas apenas as considerações gerais do texto. Os demais tópicos estão contidos no documento disponível para download. voltar

Versão para download: Tema do mês de junho de 2006

Faça perguntas ou comentários diretamente a nossos consultores através do correio eletrônico.

Leia os temas dos meses anteriores

A Teia da Vida - FRITJOF CAPRA

A Teia da Vida - FRITJOF CAPRA


A MUDANÇA DE PARADIGMA
Na minha vida de físico, meu principal interesse tem sido a dramática mudança de concepções e de idéias que ocorreu na física durante as três primeiras décadas deste século, e ainda está sendo elaborada em nossas atuais teorias da matéria. As novas concepções da física têm gerado uma profunda mudança em nossas visões de mundo; da visão de mundo mecanicista de Descartes e de Newton para uma visão holística, ecológica.
A nova visão da realidade não era, em absoluto, fácil de ser aceita pelos físicos no começo do século. A exploração dos mundos atômico e subatômico colocou-os em contato com uma realidade estranha e inesperada. Em seus esforços para apreender esta nova realidade, os cientistas ficaram dolorosamente conscientes de que suas concepções básicas, sua linguagem e todo seu modo de pensar eram inadequados para descrever os fenômenos atômicos. Seus problemas não eram meramente intelectuais, mas alcançavam as proporções de uma intensa crise emocional e, poder-se-ia dizer, até mesmo existencial. Eles precisaram um longo tempo para superar essa crise, mas, no fim, foram recompensados por profundas introvisões sobre a natureza da matéria e de sua relação com a mente humana.
As dramáticas mudanças de pensamento que ocorreram na física no princípio deste século têm sido amplamente discutidas por físicos e filósofos durante mais de cinqüenta anos. Elas levaram Thomas Kuhn à noção de um “paradigma” científico, definido como “ uma constelação de realizações – concepções, valores, técnicas, etc – compartilhada por uma comunidade científica e utilizada por essa comunidade para definir problemas e soluções legítimos”. Mudanças de paradigmas, de acordo com kuhn, ocorrem sob forma de rupturas descontínuas e revolucionárias denominadas “mudanças de paradigma”.
Hoje, vinte e cinco anos depois da análise de kuhn, reconhecemos a mudança de paradigma em física como parte integral de uma transformação cultural muito mais ampla. A crise intelectual dos físicos quânticos na década de vinte espelha-se hoje numa crise cultural semelhante, porém muito mais ampla. Consequentemente, o que estamos vendo é uma mudança de paradigmas que está ocorrendo não apenas no âmbito da ciência, mas também na arena social, em proporções ainda mais amplas. Para analisar esta transformação cultural, generalizei a definição de Kuhn de um paradigma cientifico até obter um paradigma social, que defino como “ uma constelação de concepções, de valores, de percepções e de práticas compartilhadas por uma comunidade, que dá forma a uma visão particular da realidade, a qual constitui a base da maneira como a comunidade se organiza.
O paradigma que está agora retrocedendo dominou a nossa cultura por várias centenas de anos, durante as quais modelou nossa moderna sociedade ocidental e influenciou significativamente o restante do mundo. Esse paradigma consiste em várias idéias e valores entrincheirados , entre os quais a visão do universo como um sistema mecânico composto de blocos de construção elementares, a visão do corpo humano como uma máquina, a visão da vida em sociedade como uma luta competitiva pela existência, a crença no crescimento material ilimitado, a ser obtido por intermédio de crescimento econômico e tecnológico, e – por fim, mas não menos importante – a crença em que uma sociedade na qual a mulher é, por toda a parte, classificada em posição inferior à do homem é uma sociedade que segue a lei básica da natureza. Todas essas suposições têm sido decisivamente desafiadas por eventos recentes. E, na verdade, está ocorrendo, na atualidade, uma revisão radical dessas suposições.
ECOLOGIA PROFUNDA
O nosso paradigma pode ser chamado de uma visão de mundo holística,, que concebe o mundo como um todo integrado, e não como uma coleção de partes dissociadas. Pode também ser denominado de “visão ecológica”, se o termo “ecológica” for empregado num sentido mais amplo e mais profundo que o usual. A percepção ecológica profunda reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos , e o fato de que, enquanto indivíduos e sociedades, estamos todos encaixados em processos cíclicos da natureza (e , em última análise, somos dependentes desse processos).
Os dois termos, ‘holístico” e “ecológico” , diferem ligeiramente em seus significados, e parece que “holístico” é um pouco menos apropriado para descrever o novo paradigma. Uma visão holística, digamos, de uma bicicleta significa ver a bicicleta como um todo funcional e compreender, em conformidade com isso, as interdependências das suas partes. Uma visão ecológica da bicicleta inclui isso, mas acrescenta-lhe a percepção de como a bicicleta está encaixada no seu ambiente natural e social – de onde vêm as matérias-primas que entram nela, como foi fabricada, como o seu uso afeta o meio ambiente natural e a comunidade pela qual ela é usada, e assim por diante. Essa distinção entre “holístico” e “ecológico” é ainda mais importante quando falamos de sistemas vivos, para os quais as conexões com o meio ambiente são muito mais vitais.
O sentido em que eu uso o termo “ecológico” está associado com uma escola filosófica específica e , além disso, com um movimento popular global conhecido como “ecologia profunda”, que está, rapidamente, adquirindo proeminência. A escola filosófica foi fundada pelo filósofo norueguês Arne Naess, no início da década de 70, com sua distinção entre “ecologia rasa” e “ecologia profunda”. Essa distinção é hoje amplamente aceita como um termo muito útil para se referir a uma das principais divisões dentro do pensamento ambientalista contemporâneo.
A ecologia rasa é antropocêntrica, ou centralizada no ser humano, Ela vê os seres humanos como situados acima ou fora da natureza, como fonte de todos valores, e atribui apenas um valor instrumental, ou de “uso”, à natureza. A ecologia profunda separa seres humanos – ou qualquer outra coisa – do meio ambiente natural. Ela vê o mundo não como uma coleção de objetos isolados, mas como uma rede de fenômenos que estão fundamentalmente interconectados e são interdependentes . A ecologia profunda reconhece o valor intrínseco de todos os seres vivos e concebe os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida.
Em última análise, a percepção da ecologia profunda é percepção espiritual ou religiosa. Quando a concepção de espírito humano é entendida como o modo de consciência no qual o indivíduo tem uma sensação de pertinência, de conexidade, com o Cosmos como um todo, torna-se claro que a percepção ecológica é espiritual na sua essência mais profunda. Não é pois, de se surpreender o fato de que a nova visão emergente da realidade baseada na percepção ecológica profunda é consistente com a chamada filosofia perene das tradições espirituais, quer falemos a respeito da espiritualidade dos místicos cristãos, da dos budistas, ou da filosofia e cosmologia subjacentes às tradições nativas norte-americanas.
Há outro modo pelo qual Arne Naess caracterizou a ecologia profunda. “A essência da ecologia profunda”, diz ele, “consiste em formular questões mais profundas.” É também essa a essência de uma mudança de paradigma. Precisamos estar preparados para questionar cada aspecto isolado do velho paradigma.(LY) Eventualmente, não precisaremos nos desfazer de tudo, mas antes de sabermos isso, devemos estar dispostos a questionar tudo. Portanto, a ecologia profunda faz perguntas profundas a respeito dos próprios fundamentos da nossa visão de mundo e do nosso modo de vida modernos, científicos, industriais, orientados para o crescimento e materialistas. Ela questiona todo esse paradigma com base numa perspectiva ecológica: a partir da perspectiva de nossos relacionamentos uns com outros, com as gerações futuras e com a teia da vida da qual somos parte.
ECOLOGIA SOCIAL E ECOFEMINISMO
Além da ecologia profunda, há duas importantes escolas filosóficas de ecologia. A ecologia social e a ecologia feminista, ou “ecofeminismo”. Em anos recentes tem havido um vivo debate, em periódicos dedicados à filosofia. A respeito das méritos relativos da ecologia profunda, da ecologia social e ecofeminismo. Parece-me que cada uma das três escolas aborda aspectos importantes do paradigma ecológico e, em vez de competir uns com os outros, seus proponentes deveriam tentar integrar suas abordagens numa visão ecológica coerente.
A percepção ecológica profunda parece fornecer a base filosófica e espiritual ideal para um estilo de vida ecológico e para o ativismo ambientalista. No entanto, não nos diz muito a respeito das características e padrões culturais de organização social que produziram a atual crise ecológica. É esse o foco da ecologia social.
O solo comum das várias escolas de ecologia social é o reconhecimento de que a natureza fundamentalmente antiecológica de muitas de nossas estruturas sociais e econômicas está arraigada naquilo que Riane Eisler chamou de “sistema dominador” de organização social. O patriarcado, o imperialismo, o capitalismo e o racismo são exemplos de dominação exploradora e antiecológica. Dentre as diferentes escolas de ecologia social, há vários grupos marxistas e anarquistas que utilizam seus respectivos arcabouços conceituais para analisar diferentes padrões de dominação social.
O ecofeminismo poderia ser encarado como uma escola especial de ecologia social, uma vez que ele aborda a dinâmica básica de dominação social dentro do contexto do patriarcado. Entretanto, sua análise cultural das muitas facetas do patriarcado e das ligações entre o feminismo e ecologia vai muito além do arcabouço da ecologia social. Os ecofeministas vêem a dominação patriarcal de mulheres por homens como o protótipo de todas formas de dominação e exploração: hierárquica, militarista, capitalista e industrialista. Eles mostram que a exploração da natureza, em particular, tem marchado de mãos dadas com a das mulheres, que têm sido identificadas com a natureza através dos séculos. Essa antiga associação entre a mulher e a natureza liga a história das mulheres com a história do meio ambiente, e é a fonte de um parentesco natural entre o feminismo e ecologia. Consequentemente, os ecofeministas vêem o conhecimento vivencial feminino como uma das fontes principais de uma visão ecológica da realidade.
NOVOS VALORES
Neste breve esboço do paradigma ecológico emergente, enfatizei até agora as mudanças nas percepções e nas maneiras de pensar. Se isso fosse tudo o que é necessário, a transição para um novo paradigma seria muito mais fácil. Há, no movimento da ecologia profunda, um número suficiente de pensadores articulados e eloqüentes que poderiam convencer nossos líderes políticos e corporativos acerca dos méritos do novo pensamento. Mas isso é somente parte da história. A mudança de paradigmas requer uma expansão não apenas de nossas percepções e maneiras de pensar, mas também de nossos valores.
É interessante notar aqui a notável conexão nas mudanças entre pensamentos e valores. Ambas podem ser vistas como mudanças de auto-afirmação para integração. Essas duas tendências – a auto-afirmativa e a interativa – são, ambas, aspectos essenciais de todos os sistemas vivos. Nenhuma delas é, intrinsecamente, boa ou má. O que é bom, ou saudável, é um equilibrio dinâmico; o que é mau, ou insalubre, é o desequilíbrio – a ênfase excessiva em uma das tendências em detrimento da outra. Agora, se olharmos para a nossa cultura industrial ocidental, veremos que enfatizamos em excesso as tendências auto-afirmativas e negligenciamos as interativas. Isso é evidente tanto no nosso pensamento como nos nossos valores, e é muito instrutivo colocar essas tendências opostas lado a lado.
................................PENSAMENTO..................................
AUTO-AFIRMATIVO..........................INTEGRATIVO
Racional................................................Intuitivo
Análise..................................................Síntese
Reducionista..........................................Holístico
Linear....................................................Não-linear
............................VALORES..................................
AUTO-AFIRMATIVO........................INTEGRATIVO
Expansão.........................................Conservação
Competição......................................Cooperação
Quantidade.......................................Qualidade
Dominação........................................Parceria
Uma das coisas que notamos quando examinamos esta tabela é que os valores auto-afirmativos – competição, expansão, dominação – estão geralmente associados com homens. De fato, na sociedade patriarcal, eles não são apenas favorecidos como também recebem recompensas econômicas e poder político. Essa é uma das razões pelas quais a mudança para um sistema de valores mais equilibrados é tão difícil para a maioria das pessoas, e especialmente para os homens.
O poder, no sentido de dominação sobre os outros, é auto-afirmação excessiva. A estrutura social na qual é exercida de maneira mais efetiva é a hierarquia. De fato, nossas estruturas políticas, militares e corporativas são hierarquicamente ordenadas, com os homens geralmente ocupando os níveis superiores, e as mulheres, os níveis inferiores. A maioria desse homens. E algumas mulheres, chegaram a considerar sua posição na hierarquia como parte de sua identidade, e, desse modo,, a mudança para um diferente sistema de valores gera neles medo existencial.
No entanto, há um outro tipo de poder, um poder que é mais apropriado para o novo paradigma – poder como influência de outros. A estrutura ideal para exercer este tipo de poder não é a hierarquia mas a rede, que, como veremos, é também a metáfora central da ecologia. A mudança de paradigma inclui, dessa maneira, uma mudança na organização social, uma mudança de hierarquias para redes.
ÉTICA
Toda questão dos valores é fundamental para a ecologia profunda; é, de fato, sua característica definidora central. Enquanto que o velho paradigma está baseado em valores antropocêntricos (centralizados no ser humano), a ecologia profunda está alicerçada em valores ecocêntricos (centralizados na Terra). É uma visão de mundo que reconhece o valor inerente da vida não-humana. Todos os seres vivos são membros de comunidades ecológicas ligadas umas às outras numa rede de interdependências. Quando essa percepção ecológica profunda torna-se parte de nossa consciência cotidiana, emerge um sistema de ética radicalmente novo.
Essa ética ecológica profunda é urgentemente necessária nos dias de hoje, e especialmente na ciência, uma vez que a maior parte daquilo que os cientistas fazem não atua no sentido de promover a vida nem de preservar a vida, mas sim no sentido de destruir a vida. Com os físicos projetando sistemas de armamentos que ameaçam eliminar a vida no planeta, com químicos contaminando o meio ambiente global, com os biólogos pondo à solta tipos novos e desconhecidos de microorganismos sem saber as conseqüências, com psicólogos e outros cientistas torturando animais em nome do progresso científico – com todas essas atividades em andamento, parece da máxima urgência introduzir padrões “ecoéticos” na ciência.
Geralmente, não se reconhece que os valores não são periféricos à ciência e à tecnologia, mas constituem sua própria base e força motriz. Durante a revolução cientifica no século XVII, os valores eram separados dos fatos, e desde essa época tendemos a acreditar que os fatos científicos são independentes daquilo que fazemos, e são, portanto, independentes de nossos valores. Na realidade, os fatos científicos emergem de toda uma constelação de percepções, valores e ações humanos – em uma palavra, emergem de um paradigma – dos quais não podem ser separados. Embora grande parte das pesquisas detalhadas possa não depender explicitamente do sistema de valores do cientista, o paradigma mais amplo, em cujo âmbito essa pesquisa é desenvolvida, nunca será livre de valores. Portanto os cientistas são responsáveis pelas suas pesquisas não apenas intelectual mas também moralmente. Dentro do contexto da ecologia profunda, a visão segundo a qual esses valores são inerentes a toda natureza viva está alicerçada na experiência profunda, ecológica, ou espiritual, de que a natureza e o eu são um só. Essa expansão do eu até a identificação com a natureza é a instrução básica da ecologia profunda, como Arne Naess claramente reconhece:
“O cuidado flui naturalmente se o “eu” é ampliado e aprofundado de modo que a proteção da natureza livre seja sentida e concebida como proteção de nós mesmos. ... assim como não precisamos de nenhuma moralidade para nos fazer respirar... [da mesma forma] se o seu “eu”, no sentido amplo dessa palavra, abraça um outro ser, você não precisa de advertências morais para demonstrar cuidado e afeição... você o faz por si mesmo, sem sentir nenhuma pressão moral para fazê-lo. ... Se a realidade é como é experimentada pelo eu ecológico, nosso comportamento, de maneira natural e bela, segue normas de estrita ética ambientalista.”
O que isso implica é o fato de que o vínculo entre uma percepção ecológica do mundo e o comportamento correspondente não é uma conexão lógica, mas psicológica.
A lógica não nos persuade de que deveríamos viver respeitando certas normas, uma vez que somos parte integral da teia da vida. No entanto, se temos a percepção, ou a experiência, ecológica profunda de sermos parte da teia da vida, então ESTAREMOS (em oposição a DEVERÍAMOS ESTAR) inclinados a cuidar de toda natureza viva. De fato, mal podemos deixar de responder dessa maneira.
O vínculo entre ecologia e psicologia, que é estabelecido pela concepção de eu ecológico, tem sido recentemente explorado por vários autores. A ecologista profunda Joanna Macy escreve a respeito do “reverdecimento do eu”; o filósofo Warwick Fox cunhou o termo “psicologia transpessoal”, e o historiador cultural Theodore Rozak utiliza o termo “ecopsicologia” para expressar a conexão profunda entre esses dois campos, os quais, até muito recentemente, eram completamente separados.
MUDANÇA DA FÍSICA PARA AS CIÊNCIAS DA VIDA
Chamando a nova visão emergente da realidade de “ecológica” no sentido da ecologia profunda, enfatizamos que a vida se encontra em seu próprio cerne. Este é um ponto importante para a ciência, pois, no velho paradigma, a física foi o modelo e a fonte de metáforas para todas as outras ciências. “toda filosofia é como uma árvore”, escreveu Descartes. “As raízes são a metafísica, o tronco é a física e os ramos são todas as outras ciências.”
A ecologia profunda superou essa metáfora cartesiana. Mesmo que a mudança de paradigma em física ainda seja de especial interesse foi a primeira a ocorrer na ciência moderna, a física perdeu o seu papel como ciência que fornece a descrição mais fundamental da realidade. Entretanto, hoje, isto ainda não é geralmente reconhecido. Cientistas, bem como não cientistas, freqüentemente retêm a crença popular segundo a qual “se você quer realmente saber a explicação última, terá de perguntar a um físico”, o que é claramente uma falácia cartesiana. Hoje, a mudança de paradigma na ciência, em seu nível mais profundo, implica uma mudança da física para as ciências da vida.
Do livro: A TEIA DA VIDA (The Web of Life), do cientista nas áreas de física quântica e ecologia profunda FRITJOF CAPRA

sexta-feira, setembro 07, 2007

Realidade como uma rede

All things are connected. In any specific system those connections may be sparse or plentiful, irrelevant or crucial. We propose that a continuum of connectivity exists, which allows us to treat all conventional specialisms as just special cases of a more general and universal model. This multi-level model, comprising standard operations, can apply to all aspects of our universe, taking into account not only science, but arts, humanities and spirit also - in other words, "Life, the Universe and Everything". We demonstrate how this is possible, and also show how such an approach, within an evolutionary context, can overcome the problems with relativistic truth and value in conventional thought. Intrigued ? Then read on... [Chris Lucas]

"As redes estão em todas as partes. O cérebro é uma rede de células nervosas conectadas por axônios e as próprias células são redes de moléculas ligadas por reações bioquímicas. As sociedades também são redes, constituídas por pessoas unidas por amizades, laços familiares e profissionais. Em uma escala mais ampla, redes alimentares e ecossistemas podem ser representados como redes de espécies. E redes permeiam a tecnologia: a Internet, as redes de energia elétrica e os sistemas de transporte são apenas alguns exemplos. A própria linguagem que usamos para transmitir essas idéias é uma rede, formada por palavras conectadas por padrões sintáticos. Mas, apesar da importância e do alcance das redes, os cientistas nunca compreenderam muito bem suas estruturas e propriedades. De que maneira as interações entre nós defeituosos em uma rede genética complexa resultam em câncer? Como a difusão ocorre tão rapidamente em certos sistemas sociais e de comunicação, causando epidemias de doenças e vírus de computador? Como algumas redes continuam a funcionar, após o colapso da maioria de seus nós?" [Albert- László Barabási]





A Realidade, segundo Capra [Tao da Física], é uma rede de relações onde as próprias relações se manifestam como objetos, interações (estruturas), estados, processos, eventos, sistemas, ...

No novo paradigma a ciência deve conceber a realidade como uma rede de relações. O campo de ação abrange uma teia de relações intrinsecamente dinâmicas, que não lida com verdades exatas.

A Realidade é uma rede interconexa de fenômenos (objetos / relações ou interações) que inclui o observador humano como um componente integrante, onde:




  1. a realidade é um todo indivisível, as suas divisões (dimensões, domínios, níveis, aspectos, visões, enfoques, pontos de vista, ...) são criações de seres cognitivos para efeitos de entendimento e manipulação da mesma;

  2. quaisquer das partes dessa rede constituem apenas padrões relativamente estáveis;
    de maneira correspondente, os fenômenos reais são entendidos por meio de uma rede de conceitos;

  3. nenhuma parte é mais fundamental do que qualquer outra;
    a realidade pode ser entendida a partir de suas partes (reducionismo) ou do todo (holismo), na realidade quando estamos nos referindo a partes ou todo, estamos abstraindo, com o propósito de obter entendimento. Na realidade não existem partes ou todo a realidade é única;

  4. os fenômenos da realidade podem ser enfocados como estruturas – dados/informações (enfoque estático ou estrutural) ou como processos (enfoque dinâmico ou comportamental);

  5. a realidade deve ser descrita com a inclusão do observador humano no próprio processo de descrição, isto é, a descrição é dependente do observador humano e do processo de conhecimento. O entendimento do processo de conhecimento deve ser incluído explicitamente na descrição dos fenômenos da realidade, a epistemologia é parte integrante de toda teoria científica;

  6. a realidade é uma rede de relações e também nossas descrições – conceitos, modelos e teorias – formam uma rede interconexa, representando os fenômenos observados. Nessa rede não existe nada primário ou secundário, nem quaisquer alicerces e tudo ser relaciona com tudo;

  7. todos os conceitos, modelos e teorias científicas são limitados e aproximados. Nunca existirá um entendimento completo e definitivo, nem verdades absolutas e sim descrições limitadas e aproximadas da realidade. Nenhum fenômeno isolado da realidade pode ser plenamente explicado, mas podem ser experimentados em nossa limitada totalidade;

  8. devemos distinguir, segundo Popper, com alguma clareza a:
  • Realidade Real – Realidade Única
  • Realidade Mental – Realidade Subjetiva
  • Realidade Teórica (Conceitos, Teorias e Modelos) –Realidade Objetiva.

A Realidade pode, então, ser vista como uma rede interconexa de fenômenos (elementos - objetos, entidades / interações - relações, ligações) que inclui o observador humano como um componente integrante, onde:



Os fenômenos reais, representados como elementos de rede onde um elemento de rede pode ser:

  1. um nó representando um fenômeno do tipo objeto, ou
  2. um arco representando uma ligação (interação entre fenômenos)

Os fenômenos do conhecimento são também fenômenos reais, representados como conceitos em rede onde um conceito (elemento de conhecimento) pode ser:

  1. um nó representando um termo ou tipo ou classe
  2. um arco representando uma relação ou associação entre conceitos.

Um nó da rede pode encapsular uma outra rede.




Essas redes podem ser organizadas em níveis: