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sábado, março 15, 2008

O que é a Justificação

O que é a justificação?

 

A teoria do conhecimento ou epistemologia é a disciplina filosófica que estuda a natureza, limites e possibilidade do conhecimento. Num certo sentido, toda a filosofia se divide entre metafísica, que estuda os aspectos mais gerais da realidade, e a epistemologia, que estuda os aspectos mais gerais do conhecimento. Afinal, é argumentável que nada há além da realidade e do nosso conhecimento da realidade.
Entre outras coisas, em epistemologia (não confundir com filosofia da ciência) estuda-se a noção de justificação e a sua relação com a verdade e o conhecimento. Mas o que é a justificação?

Intuitivamente e popularmente as pessoas tendem a ter uma concepção metafísica de justificação. Contudo, não é essa a concepção mais comum em epistemologia, nem sequer é claro que tal concepção não seja uma confusão entre verdade e justificação.

A questão torna-se mais clara se pensarmos deste modo: será possível ter justificação para aceitar uma crença falsa? Segundo a concepção metafísica da justificação, não é possível. Mas isto acontece apenas porque se entende justificação como uma garantia de verdade. Neste sentido, ter uma crença justificada implica a verdade da crença. Evidentemente, não é este o sentido de “justificação” usado na análise tripartida do conhecimento como crença verdadeira justificada — pois nesse caso a análise seria redundante: a verdade estaria a mais, pois a justificação já garantiria a verdade.

A concepção mais defensável, e a concepção associada à análise tripartida do conhecimento, é que um agente cognitivo está justificado em acreditar em algo quando está em jogo um qualquer processo fidedigno de formação de crenças verdadeiras. Mas um processo de formação de crenças pode ser fidedigno e no entanto dar origem a crenças falsas, em certas circunstâncias. E é nesses casos que o agente está justificado em acreditar em algo, apesar de a crença ser falsa.

Por exemplo, podemos dizer que Ptolomeu tinha uma crença justificada de que a Terra estava imóvel. O tipo de indícios que ele usava eram adequados para sustentar essa crença — mas teve azar porque tais indícios são ou enganadores ou insuficientes para estabelecer a verdade de tal crença. Posto de outro modo: Ptolomeu não cometeu qualquer “pecado” epistémico, não cometeu qualquer erro epistémico. Apenas estava numa circunstância infeliz. Desde que tenha analisado cuidadosamente os dados empíricos, tenha raciocinado sem cometer erros triviais e tenha procurado activamente dados contrários à sua crença de que a Terra está imóvel, Ptolomeu tinha justificação para aceitar a sua crença, apesar de esta ser falsa.

É aliás defensável que esta é a grande diferença entre os erros da ciência e os acertos da religião. As teorias erradas da ciência são crenças justificadas no contexto em que se pensa que são verdadeiras, ao passo que mesmo as crenças verdadeiras da religião são sempre injustificadas no contexto religioso porque os mecanismos de justificação de crenças usados pela religião (tradição e autoridade, visões místicas pessoais e vivenciais, insusceptíveis de testes independentes) nada justificam. Quando a ciência erra, não peca epistemicamente. Mas a religião, mesmo quando acerta na verdade por sorte, peca epistemicamente.

Distingue-se também habitualmente em filosofia a noção de estar justificado da noção de ser capaz de articular uma justificação. O exemplo típico é uma criança que está justificada em acreditar que há leite no frigorífico porque abriu o frigorífico e lhe pareceu ver leite numa garrafa. Mas é claro que uma criança não é capaz de articular uma justificação, que teria de incluir conhecimentos complexos de percepção visual. Contudo, mesmo sem ser capaz de articular tal justificação, está justificada.

Também é evidente que a crença da criança pode ser falsa — afinal, a mãe pode ter colocado um qualquer líquido branco na garrafa do leite, sem a criança saber. Se não aceitarmos que a crença da criança está justificada, é porque fazemos coincidir a justificação com a verdade, o que a generalidade dos filósofos recusaria, e o que tornaria a análise clássica do conhecimento redundante por definição.

terça-feira, março 11, 2008

O que é conhecimento?

O que é conhecimento?

19 11 2007

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Jardim com ruîas da Academia de Platão - Atenas (2005)Durante séculos aceitamos como uma boa definição de conhecimento aquela inaugurada por Platão (colocada na boca de Sócrates): crença verdadeira justificada. Mas, em 1963 o estadunidense Edmund Gettier, com um paper de apenas três páginas, deixou os filósofos da época, e nós que viemos depois, olhando feio para Platão. E pior, passamos a olhar feio para nós mesmos, por não termos percebido – não do modo de Gettier – que a definição de Platão, tão bem adaptada, havia se tornado um dogma. Batemos a cabeça contra a parede; afinal, como não percebemos o que Gettier percebeu? Ele forneceu alguns exemplos de como que a nossa definição não podia se sustentar. A conseqüência disso foi uma revolução na epistemologia. Jogávamos nossas fichas na justificação, e a partir daí tivemos de desenvolver de modo melhor as teorias que apostavam não em justificação de crenças, mas nas causas (da produção) da crença.

“Crença verdadeira justificada” era a nossa definição de conhecimento porque nós, desde Platão, E. Gettiercriamos a idéia de que um enunciado pode ser algo chamado de conhecimento na medida em que ocorrem três coisas: 1) acreditamos no enunciado em questão; 2) o enunciado é, honestamente, uma crença nossa, e é uma crença verdadeira; 3) essa crença verdadeira está articulada a outros enunciados que a justificam. Essa noção de conhecimento precisa de um adendo explicativo, pois aqui é necessário relembrar os manuais de lógica, quando eles separam “verdade” e “justificação”.

D. DavidsonO que os manuais dizem é que a verdade é objetiva – sempre. Não há discussão sobre ela, e nem pode haver. Se há discussão, esta cai para o âmbito da justificação. Ou seja, a verdade é objetiva, subjetiva é a justificação. Eu explico.

Posso dizer “eu creio que há uma banana em cima da mesa” e, então, entender perfeitamente que a proposição p “há uma banana em cima da mesa” é objetiva, pois ela só possui dois valores de verdade: falsa ou verdadeira. Ou há uma banana em cima da mesa ou não há uma banana em cima da mesa. Assim, não é sobre o enunciado que cabe uma discussão, digamos, subjetiva. Uma vez que este enunciado é pronunciado, e ele é uma proposição – no caso, a proposição p –, ele escapa da boca de quem o pronunciou para ganhar vida objetiva, e tal “vida” funciona no âmbito da lógica; isto é, neste nível, p está desligada da questão da percepção (da banana) e da prova (de que banana esta em cima da mesa ou não). Então, o enunciado p “há uma banana em cima da mesa” é objetivo neste exato sentido – ele ou é falso ou é verdadeiro. Sobre ele, nenhum cético respeitável tem o que dizer. O cético que em geral consideramos, quando diz duvidar, duvida não da verdade, mas do conhecimento. O que nos conta é que a justificação da proposição p “há uma banana em cima da mesa” é que não irá nos satisfazer. Afirma que desconfia que jamais teremos conhecimento, pois podemos ter a crença na proposição p “há uma banana em cima da mesa” e brigar com qualquer um assumindo que p é verdadeira (ou falsa), mas quando viermos a dar justificativas para a manutenção (ou não) dessa nossa crença, iremos nos complicar – sempre.

Sócrates (?), escultura achada em escavações em DelfosAssim, desde Platão, a tarefa do filósofo que faz epistemologia ou teoria do conhecimento é a de criar mecanismos para a melhoria das justificações. E por isso mesmo um filósofo como Donald Davidson diz que precisamos distinguir, nas teorias de verdade, as que são do âmbito da lógica e as que são do âmbito epistemológico.[1] As da lógica não levam em conta a justificação, enquanto que as epistemológicas são inerentemente ligadas à discussão sobre justificações. Levando o raciocínio de Davidson mais adiante, poderíamos até dizer que muitas das divergências entre teóricos que lidam com o tema da verdade poderiam ser dissipadas se observássemos esse duplo approach, o da lógica como distinto do da epistemologia.

Os filósofos que observaram isso e que, de fato, puderam seguir Platão, resolveram dar um passo a mais, para aperfeiçoar tecnicamente a definição de conhecimento. Eles disseram que conhecimento é a crença verdadeira justificada, sendo que a justificação deveria ser irrevogável. Este caráter de irrevogabilidade da justificação, então, é que seria a pedra de toque de toda a questão de se temos na mão uma crença verdadeira que é conhecimento ou uma crença verdadeira que não é conhecimento. Assim, ficaríamos tranqüilos na diferença entre afirmar uma crença, por um lado, e dizer que sabemos de algo cujo conteúdo é expresso pela tal crença, por outro lado.

Todavia, isso valeu até 1963. Ou, ao menos, em boa medida tomávamos a definição neoplatônica sem grandes problemas até 1963. Pois nos Estados Unidos, exatamente naquele ano, o que Gettier fez foi propor o seguinte exemplo. Suponha Smith e Jones se inscrevendo para uma entrevista de emprego. Suponha também que Smith fique sabendo, diretamente pelo empregador, que não é ele que os proprietários têm em vista, e sim Jones. Este, por sua vez, aparece na entrevista e, na conversa com Smith, deixa transparecer que tem dez moedas no bolso da camisa. O que temos? Temos o seguinte:

1. Jones é o escolhido – crença verdadeira e justificada de Smith;

2. Jones tem dez moedas no bolso – crença verdadeira e justificada de Smith;

3. Conclusão de Smith, verdadeira e justificada: o homem escolhido tem dez moedas no bolso.

Bem, a entrevista ocorre, e eis que há uma surpresa. Sai o resultado da entrevista e Smith vê que é ele o escolhido, e não Jones (por alguma razão, na decisão, os patrões acharam um problema com Jones – isso não importa). Ora, Smith havia chegado à conclusão, e de modo correto, que o enunciado “o homem escolhido tem dez moedas no bolso” é verdadeiro. Pensa que errou, então. Todavia, se enfiasse a mão no bolso perceberia que também tem dez moedas (havia tirado uma camisa do guarda roupa e nesta camisa já estava o dinheiro, e jamais notou – isso não importa). Eis que sua conclusão é verdadeira: “o homem escolhido tem dez moedas no bolso”. E é uma conclusão justificada, pois a inferência é correta: de duas crenças verdadeiras e justificadas ele tirou uma terceira, verdadeira e justificada. A lógica não foi maculada. No entanto, não podemos dizer que essa crença de Smith, embora verdadeira e justificada, seja conhecimento, algo que indique que ele “sabe”. A conclusão pode ser chamada de crença verdadeira e justificada, mas as razões da justificação que poderiam nos levar a dizer que ele “tem conhecimento” não são as razões apontadas por ele, Smith. Ele tem crença verdadeira justificada, mas não tem conhecimento. Seria um erro usar o verbo saber, no caso.

Essa virada de Gettier na filosofia, que poderia ter alimentado o cético, acabou não alimentando tanto quanto à primeira vista poderia parecer. Pois o que ocorreu foi que os filósofos começaram a deixar de lado a definição que apela para justificações, e passaram a buscar definições de conhecimento a partir de causas. Em vez de ter o enunciado, e então buscar justificações, agora, para se ver se há ou não conhecimento, toma-se o enunciado em questão para investigar o que o produziu. Estamos hoje no meio de investigações no campo da teoria do conhecimento que nos levam a causas – são as teorias causais do conhecimento que ganham espaço hoje em dia. E esse campo só se abriu para tais perspectivas, ao menos com tal clareza filosófica, há poucas décadas.

H. Putnam Resumindo ao máximo, digo que uma teoria do conhecimento é causal quando ela pretende explicar o conhecimento única e exclusivamente com o apelo a causas. Por exemplo, você sabe do que ocorre ao seu redor na medida em que o que ocorre atinge sua vista e causa o impulso elétrico que lhe chega ao cérebro e que é devolvido ao nervo ótico de determinada maneira etc. E você sabe que Colombo aportou no continente que hoje denominamos de América de um modo também causal: um historiador escreveu isso em um livro e este livro foi entregue para você na escola, e as letras impressas no livro causaram em você essa condição de quem sabe que Colombo descobriu a América.

RortyÉ claro que, neste caso, há uma nova discussão a ser feita, que a da distinção entre “fatos” e “valores”. Há os que dizem que o que você vê é fato, o que é você leu está crivado por valor, e isso faria grande diferença etc. – em geram, chamamos de positivistas os que pensam assim. Mas, para filósofos como John Dewey, Hilary Putnam, Richard Rorty, Donald Davidson e vários outros (pragmatistas, de um modo geral), a distinção fato-valor não se sustenta, então, para eles, uma teoria causal do conhecimento deve receber boas vindas.

O problema, então, se existe, é ver como que a distinção fato-valor pode ser colocada de lado e, em seguida, como que colocando de lado tal distinção, podemos evitar o chamado reducionismo fisicalista, o que no passado chamávamos de a “desconsideração materialista” pela consciência ou alma, uma desconsideração que estaria no sentido de negar a liberdade como condição humana, etc. Há uma plêiade de outras discussões envolvidas aqui. Todavia, é difícil voltar para antes de 1963. Portanto, há de se admitir que também na filosofia, e não só nas ciências, há progresso.

Paulo Ghiraldelli Jr. pgjr23@yahoo.com.br

O conhecimento como crença verdadeira justificada

Autor: Cornman, Leher, Pappas
Fonte: Textos de Interesse Filosófico
Original: Pilosophical Problems and Arguments: An introduction
New York, Macmillan Publishing Co., Inc., 1983, pp. 42-44

 

Que significa [...] dizer que alguém conhece [knows] alguma coisa? Para responder claramente a isto, temos primeiro de especificar com precisão o que está a ser perguntado, pois a palavra “conhecer” tem uma grande variedade de usos e significados. Por exemplo, pode-se dizer de alguém que sabe [knows] jogar golfe, também pode dizer-se que conhece Paris, e, finalmente, pode dizer-se que sabe que a Universidade de S. Marcos é a mais antiga do hemisfério ocidental. Este último uso da palavra “conhece” [ou “sabe”] é aquele que está mais diretamente relacionado com a verdade e é o alvo habitual da crítica cética. Dizer que uma pessoa sabe que a Universidade de S. Marcos é a mais antiga do hemisfério ocidental é equivalente a dizer que ela sabe que é verdade que a Universidade de S. Marcos é a mais antiga do hemisfério ocidental. Este tipo de conhecimento é por vezes chamado teorético ou discursivo. Todavia, a característica que distingue este conhecimento é a de que a verdade é o seu objeto: trata-se de um conhecimento da verdade. O ceticismo [...] afirma que algo cuja verdade quase toda a gente supõe que conhecemos é na realidade algo cuja verdade não conhecemos. Um tal conhecimento pode ser formulado tanto dizendo que alguém sabe que X, como dizendo que esse alguém sabe que é verdade que X. Estas duas maneiras de afirmar o conhecimento são equivalentes. Assim, a verdade é uma condição necessária de tal conhecimento; se uma pessoa sabe que alguma coisa é de uma certa forma, então será verdade que essa coisa é dessa forma.

Repare-se que uma pessoa pode com freqüência afirmar [claim] que sabe que algo é de uma certa forma quando não é, mas, nesse caso, embora afirme que sabe, na realidade não sabe. De fato, essa pessoa ignora a verdade. Por exemplo, se alguém afirmar que sabe que a Universidade de Harvard é a mais antiga dos Estados Unidos, estará enganada, pois isso não é verdade. Essa pessoa não sabe o que afirma saber. Quando alguém está enganado e acredita no que é falso, então falta-lhe o conhecimento. Vemos agora que uma condição necessária para uma pessoa conhecer algo é que isso seja verdade. Outra condição necessária é a de que essa pessoa acredite nisso. É óbvio que uma pessoa não sabe que algo é verdade quando nem sequer acredita que isso seja verdade. Poderemos então fazer o conhecimento equivaler simplesmente à crença verdadeira? De forma alguma! Para vermos por que não, consideremos o caso de alguém que tem um pressentimento e assim acredita que o resultado final do jogo de futebol americano do próximo ano entre a armada e o exército será um empate 21-21. Além disso, suponhamos que essa pessoa é bastante ignorante acerca dos resultados de jogos anteriores e de outros dados relevantes. Finalmente, imaginemos que, por uma mera questão de sorte, o resultado vem a ser esse. Que se trata de uma mera questão de sorte, torna-se evidente pelo fato de essa pessoa ter com freqüência tais pressentimentos acerca de resultados de jogos e de os mesmos quase sempre se revelarem errados. A sua crença verdadeira acerca do resultado do jogo do próximo ano entre a armada e o exército não pode ser considerada conhecimento. Trata-se de uma questão de sorte e nada mais.

Como poderemos distinguir o conhecimento da mera crença verdadeira? A maior parte dos filósofos, incluindo os céticos, defende que a condição para se considerar a crença verdadeira como conhecimento tem a ver com a justificação que uma pessoa tem para acreditar naquilo em que acredita. A pessoa que tem a crença verdadeira acerca do jogo entre a armada e o exército não tem uma justificação razoável para acreditar naquilo em que acredita, pois na realidade não tem qualquer razão para acreditar que o resultado será um empate 21-21. Por outro lado, uma pessoa que assista ao jogo e ouça o apito final tem a sua crença completamente justificada e sabe, portanto, que o resultado final é um empate a vinte e um pontos. Assim, podemos afirmar que uma pessoa não tem conhecimento a não ser que possa justificar, e justificar completamente, a sua crença. Além disso, o que normalmente determina se uma pessoa tem uma boa justificação para a sua crença é a qualidade da evidência em que se baseia essa crença. A evidência da pessoa que assiste a todo o jogo é bastante adequada, enquanto que a evidência da pessoa que adivinha é profundamente insignificante.

Há uma qualificação adicional que é requerida. Uma pessoa pode ter uma boa justificação para aquilo em que acredita apesar de a sua justificação se basear nalguma suposição falsa. Por exemplo, se alguém estacionar o seu carro num parque público por algumas horas, tem uma boa justificação, quando regressa ao carro e não observa nenhuma alteração, para acreditar que o motor do carro continua a estar debaixo da capota. Claro que se o motor foi roubado enquanto o dono estava ausente, então a crença deste de que existe um motor por baixo da capota não constitui conhecimento simplesmente porque é falso que o motor lá esteja. No entanto, imaginemos que depois de o motor ter sido roubado chegou um amigo que, verificando que o motor tinha sido removido, procedeu de modo a substituí-lo antes que o dono chegasse para evitar o sofrimento deste se encontrasse o carro sem motor. Nesse caso, seria correta a crença do dono de que existia um motor debaixo da capota quando regressasse. Além disso, a sua crença seria igualmente bem justificada. Todavia, a crença do dono seria baseada numa suposição falsa, a saber, a de que o motor que estava debaixo da capota do seu carro quando o deixou continuava a estar lá. Esta suposição falsa leva-o à conclusão verdadeira de que há um motor debaixo da capota, mas a única justificação que tem para acreditar nisso baseia-se numa suposição falsa. Logo, não podemos dizer que essa pessoa sabe que há um motor debaixo da capota do seu carro.

Deve-se requerer não só que alguém tenha uma boa justificação para aquilo em que acredita, mas também que essa justificação não dependa essencialmente de nenhuma suposição falsa; de outro modo, não se pode considerar que essa pessoa conheça. [...] Requer-se que alguém tenha uma justificação completa para acreditar em algo de maneira que saiba que aquilo em que acredita é verdade, e também que a sua justificação não possa ser frustrada por qualquer falsa suposição.

Concluímos assim que uma pessoa conhece algo somente quando a sua crença é verdadeira, completamente justificada, e a justificação não é frustrável. Um cético que construa o seu ponto de vista a partir desta análise do conhecimento pode argumentar em relação àquelas coisas que as pessoas normalmente assumem que conhecem afirmando (1) que nem sequer acreditamos nessas coisas, (2) que elas não são verdadeiras, (3) que não temos uma justificação completa para acreditarmos nelas, ou (4) que a nossa justificação, embora completa, é frustrada por alguma suposição falsa de que depende essencialmente. O ponto mais favorável para o cético se apoiar é a condição (3). Um cético que pretenda defender uma forma de ceticismo muito extensa, afirmando, por exemplo, que não sabemos se alguma das nossas crenças perceptivas é verdadeira, fará melhor em argumentar que a condição (3) da análise não é satisfeita por tais crenças. Claro que ele pode defender que todas essas crenças são falsas, mas se concede que temos uma justificação completa para as nossas crenças perceptivas, ser-lhe-á difícil convencer os seus detratores acerca dos méritos do seu ceticismo. Para tornar a sua posição sustentável, será necessário, como passo preliminar, argumentar que tais crenças não são completamente justificadas.

O que é o conhecimento? - Elliott Sober - Universidade de Wisconsin

Core Questions in Philosophy, de Elliot Sober

Fonte: Crítica O que é o conhecimento?

Epistemologia

O que é o conhecimento?
Elliott Sober
Universidade de Wisconsin

1. Tipos de Conhecimento

No quotidiano falamos de conhecimento, de crenças que estão fortemente apoiadas por dados, e dizemos que elas têm justificação ou que estão bem fundamentadas. A epistemologia é a parte da filosofia que tenta entender estes conceitos. Os epistemólogos tentam avaliar a ideia, própria do senso comum, de que possuímos realmente conhecimento. Alguns filósofos tentaram apoiar com argumentos esta ideia do senso comum. Outros fizeram o contrário. Os filósofos que defendem que não temos conhecimento, ou que as nossas crenças não têm justificação racional, estão a defender uma versão de cepticismo filosófico.

Antes de discutirmos se temos ou não conhecimento, temos de tornar claro o que é o conhecimento. Podemos falar de conhecimento em três sentidos diferentes, mas apenas um nos vai interessar. Considerem-se as seguintes afirmações acerca de um sujeito, ao qual chamarei S:

  1. S sabe andar de bicicleta.
  2. S conhece o Presidente dos EUA.
  3. S sabe que a Serra da Estrela fica em Portugal.

Chamo conhecimento proposicional ao tipo de conhecimento apresentado em 3. Note-se que o objecto do verbo em 3 é uma proposição — uma coisa que é verdadeira ou falsa. Existe uma proposição — a Serra da Estrela fica em Portugal — e S sabe que essa proposição é verdadeira.

As frases 1 e 2 não têm esta estrutura. O objecto do verbo em 2 não é uma proposição, mas uma pessoa. O mesmo aconteceria se disséssemos que S conhece Lisboa. Uma frase como 2 diz que S está ou esteve na presença de uma pessoa, de um lugar ou de uma coisa. Por isso dizemos que 2 corresponde a um caso de conhecimento por contacto.

Existe alguma ligação entre estes dois tipos de conhecimento? Possivelmente, para que S conheça o Presidente dos Estados Unidos, terá de ter conhecimento proposicional acerca dele. Mas qual? Para que S conheça o Presidente terá de saber em que Estado ele nasceu? Isso não parece essencial. E o mesmo parece acontecer relativamente a todos os outros factos acerca dele: não parece haver qualquer proposição específica que seja necessário saber para se possa dizer que se conhece o Presidente. Conhecer uma pessoa implica, isso sim, ter um tipo qualquer de contacto directo com ela.

Chamemos ao tipo de conhecimento exemplificado em 1 conhecimento de aptidões. Que significa dizer que se sabe fazer alguma coisa? Penso que isto tem pouco a ver com o conhecimento proposicional. Uma pessoa pode saber andar de bicicleta aos cinco anos, e para isso não precisa de saber qualquer proposição acerca desse facto. O contrário também pode acontecer: uma pessoa pode ter muito conhecimento proposicional acerca de um assunto — de pintura, por exemplo — , e não ter qualquer conhecimento de aptidões a esse respeito.

Vamos aqui abordar apenas o conhecimento proposicional. Queremos saber o que é necessário para que um indivíduo S saiba que p, sendo p uma proposição qualquer — como a de que a Serra da Estrela fica em Portugal. Daqui em diante, quando falarmos de conhecimento, estaremos sempre a referir-nos ao conhecimento proposicional.

2. Condições Necessárias e Suficientes

Consideremos a definição de solteiro:

Para qualquer S, S é solteiro se e somente se:

1) S é um adulto,
2) S é homem,
3) S não é casado.

Não digo que esta definição capta com precisão o que «solteiro» significa em português comum. Usamos apenas esta definição como um exemplo de uma proposta de definição. Uma definição é uma generalização. Diz respeito a qualquer indivíduo que queiramos considerar. Nesta definição fazemos duas afirmações: a primeira é a de que SE um indivíduo tem as características 1, 2 e 3, então é solteiro. Por outras palavras, 1, 2 e 3 são, em conjunto, suficientes para que se seja solteiro. A segunda afirmação é a de que SE um indivíduo é solteiro, então tem as três características. Por outras palavras, 1, 2 e 3 são, cada uma delas, condições necessárias para se ser solteiro.

Uma boa definição especifica as condições suficientes e necessárias para o conceito que queremos definir. Isto significa que existem dois tipos de erros que podem ocorrer numa definição: as definições podem ser demasiado abrangentes ou demasiado restritivas.

3. Dois Requisitos para o Conhecimento: Crença e Verdade

Devemos fazer notar duas ideias que fazem parte do conceito de conhecimento. Primeiro, se S sabe que p (que uma proposição é verdadeira), então tem de acreditar que p. Segundo, se S sabe que p, então p tem de ser verdadeira. O conhecimento requer tanto a crença quanto a verdade. Comecemos pela segunda ideia. As pessoas às vezes dizem que sabem coisas que mais tarde se revelam falsas. Mas isto não é saber coisas que são falsas, é pensar que se sabem coisas que, de facto, são falsas.

O conhecimento tem um lado subjectivo e um lado objectivo. Um facto é objectivo se a sua verdade não depende de como é a mente das pessoas. É um facto objectivo que a Serra da Estrela está 2 000 metros acima do nível do mar. Um facto é subjectivo se não é objectivo. O exemplo mais óbvio de um facto subjectivo é uma descrição do que acontece na mente de alguém.

Se uma pessoa acredita ou não que a Serra da Estrela está a 2 000 metros acima do nível do mar é uma questão subjectiva, mas se a montanha tem realmente essa propriedade é uma questão objectiva. O conhecimento requer tanto um elemento subjectivo como um elemento objectivo. Para que S conheça p, p tem de ser verdadeira e o sujeito, S, tem de acreditar que p é verdadeira.

4. Terceiro Requisito: Justificação

Apontei duas condições necessárias para o conhecimento: o conhecimento requer crença e requer verdade. Mas será que isto é suficiente? Será que estas duas condições não são apenas separadamente necessárias, mas também conjuntamente suficientes? É a crença verdadeira suficiente para o conhecimento?

Pensemos num indivíduo, Clyde, que acredita na história do Dia do Porco do Campo. Clyde pensa que se o Porco do Campo vir a sua própria sombra, a Primavera virá mais tarde. Suponha-se que Clyde põe este princípio idiota em prática este ano. Ele tem informações que o fazem pensar que a Primavera virá mais tarde. Suponha-se que Clyde acaba por ter razão acerca deste facto. Se não existir nenhuma conexão lógica entre o facto de o porco do campo ter visto a sua própria sombra e o facto de a Primavera vir mais tarde, então Clayde terá uma crença verdadeira (a Primavera virá tarde), mas não terá conhecimento.

Que será então necessário, para além da crença verdadeira, para que alguém possua conhecimento? A sugestão mais natural é a de que o conhecimento requer dados de apoio, ou uma justificação racional. Note-se que ter uma justificação não é apenas pensar que se tem uma razão para acreditar em algo.

Que significa dizer que um indivíduo tem uma crença «justificada» na proposição p? Uma justificação pode ter a forma de um argumento dedutivo, de um argumento indutivo ou de um argumento abdutivo. Talvez existam outras opções além destas três. Mas, o que quer que seja que entendemos por «justificação», parece plausível dizer que as crenças que são defendidas irracionalmente não são casos de conhecimento (mesmo que elas sejam verdadeiras).

5. A Teoria CVJ

Suponhamos que o conhecimento requer estas três condições. Será que isto é suficiente? Será que estas condições não são apenas separadamente necessárias, mas também conjuntamente suficientes? Chamarei CVJ à teoria que afirma que assim é. Esta teoria diz que ter conhecimento é a mesma coisa que ter crenças verdadeiras justificadas:

(CVJ) Para que qualquer indivíduo S e para qualquer proposição p, S conhece p se e somente se

1) S acredita em p
2) p é verdadeira
3) a crença de S em p está justificada

A Teoria CVJ afirma uma generalização. Diz o que é o conhecimento para qualquer pessoa e para qualquer proposição p. Por exemplo, suponhamos que S és tu e que p = «A Lua é feita de queijo verde». A teoria CVJ diz o seguinte: se sabes que a Lua é feita de queijo verde, então os enunciados 1, 2 e 3 devem ser verdadeiros. E se não sabes que a Lua é feita de queijo verde, então pelo menos um dos enunciados de 1 a 3 deve ser falso. Tal como na definição de solteiro discutida antes, a expressão «se, e somente se» diz-nos que são dadas condições necessárias e suficientes para o conceito definido.

6. Três Contra-Exemplos à Teoria CVJ

Em 1963, o filósofo Edmund Gettier publicou dois contra-exemplos para a teoria CVJ. O que é um contra-exemplo? É um exemplo que contradiz o que diz uma teoria geral. Um contra-exemplo contra uma generalização mostra que a generalização é falsa. A teoria CVJ diz que todos os casos de crença verdadeira justificada são casos de conhecimento. Gettier pensa que estes dois exemplos mostram que um indivíduo pode ter uma crença verdadeira justificada mas não ter conhecimento. Se Gettier tiver razão, então as três condições indicadas pela teoria CVJ não são suficientes.

Eis um dos exemplos de Gettier. Smith trabalha num escritório. Ele sabe que alguém será promovido em breve. O patrão, que é uma pessoa em quem se pode confiar, diz a Smith que Jones será promovido. Smith acabou de contar as moedas no bolso de Jones, encontrando aí 10 moedas. Smith tem então boas informações para acreditar na seguinte proposição:

a) Jones será promovido e Jones tem 10 moedas no bolso.

Smith deduz, então, deste enunciado o seguinte:

b) O homem que será promovido tem 10 moedas no bolso.

Suponha-se agora que Jones não receberá a promoção, embora Smith não o saiba. Em vez disso, será o próprio Smith a ser promovido. E suponha-se que Smith também tem dez moedas dentro do bolso. Smith acredita em b, e b é verdadeira. Gettier afirma também que Smith acredita justificadamente em b, dado que a deduziu de a. Apesar de a ser falsa, Smith tem excelentes razões para pensar que é verdadeira. Gettier conclui que Smith tem uma crença verdadeira justificada em b, mas que Smith não sabe que b é verdadeira.

O outro exemplo de Gettier exibe o mesmo padrão. Um sujeito deduz validamente uma proposição verdadeira a partir de uma proposição que está muito bem apoiada por informações, embora esta seja falsa, apesar de o sujeito não o saber. Quero agora descrever um tipo de contra-exemplo à teoria CVJ na qual o sujeito raciocina não dedutivamente.

O filósofo e matemático britânico Bertrand Russell (1872-1970) refere um relógio muito fiável que está numa praça. Esta manhã olhas para ele para saber que horas são. Como resultado ficas a saber que são 9.55. Tens justificações para acreditar nisso, baseado na suposição correcta de que o relógio tem sido muito fiável no passado. Mas supõe que o relógio parou há exactamente 24 horas, apesar de tu não o saberes. Tens a crença verdadeira justificada de que são 9.55, mas não sabes que esta é a hora correcta.

7. Que Têm os Contra-Exemplos em Comum?

Em todos estes casos, o sujeito tem dados para acreditar na proposição em causa que são altamente credíveis, mas não infalíveis. O patrão está geralmente certo sobre quem vai ser promovido, o relógio está geralmente certo quanto às horas. Mas é claro que geralmente não é sempre. As fontes da informação que os sujeitos exploraram nestes exemplos são altamente credíveis, mas não são perfeitamente credíveis. Todas as fontes de informação eram susceptíveis de erro, pelo menos até certo ponto.

Será que estes exemplos refutam realmente a teoria CVJ? Depende de como entendemos a ideia de justificação. Se dados altamente credíveis são suficientes para justificar uma crença, então estes contra-exemplos refutam realmente a teoria CVJ. Mas se a justificação requer dados perfeitamente infalíveis, então estes exemplos não refutam a teoria.

A minha opinião é de que os dados que justificam uma crença não precisam de ser infalíveis. Penso que podemos ter crenças racionais bem apoiadas mesmo quando não nos empenhamos em estar absolutamente certos de que o que acreditamos é verdadeiro. Assim, concluo que a crença verdadeira justificada não é suficiente para o conhecimento.

Elliott Sober
Tradução de Paula Mateus
Texto retirado do livro Core Questions in Philosophy, de Elliott Sober (Prentice Hall, 2008)